Por Saulo Nunes
A imprensa repercutiu nessa quinta-feira, 15/janeiro, uma mobilização realizada por policiais civis, militares, penais e agentes socioeducativos, meio que ‘liderados’ pelo deputado estadual Sargento Neto e o deputado federal Sargento Gilberto. O movimento aconteceu em João Pessoa e seria motivado por causa de uma espécie de “aumento salarial” – na verdade, uma decisão judicial sem possiblidade de recurso – concedida pelo governo do estado à categoria dos delegados da Polícia Civil paraibana.
Vou tentar resumir: de acordo com fontes com quem conversei, os delegados, por meio da Adepdel – associação que os representa –, ingressou com uma ação judicial há cerca de dez anos, questionando perdas financeiras (estou resumindo para melhor entendimento). A ação tramitou na justiça; o resultado foi positivo aos delegados; e o estado propôs um acordo que, resumindo mais uma vez, transformou a dívida com os deltas em “aumento salarial”. Com isso, essa classe da Polícia Civil passará a receber algo em torno de R$ 10 mil a mais no salário.
Bem grosso modo, o que o governo da Paraíba fez foi o que nós, seresHumaninhos, fazemos com cartões de crédito: “posso pagar essa conta em parcelas a perder de vista?”. Com suas diferenças consideráveis, claro, mas é quase isso.
A notícia, porém, caiu como uma bomba em plena véspera do Natal 2025, especialmente no seio/bastidores da PCPB e das demais forças de segurança. Embora as polícias brasileiras tenham atribuições absurdamente diferentes, algum ‘ninja’ em algum momento da história conseguiu atrelar os salários entre as [absurdamente diferentes] instituições policiais. “Se der pra um tem que dar pra todos”. Eu já ouvi dizer que isso é coisa de ‘comunista’, mas... Deixa quieto por enquanto.
AS REAÇÕES
Com o impacto das primeiras informações carentes de detalhes, as parcelas policiais que não têm a mesma ação judicial – ou que a têm, porém ainda não transitou – passaram a reagir nos meios de comunicação e redes sociais. “Traição”; “manobra”; “tratamento diferenciado”; “privilégio aos delegados”; etc. Turbinada com o apoio/reforço de deputados de oposição ao governo, essa é a mensagem que vem sendo difundida sobre o imbróglio.
O MOVIMENTO
Uma mobilização foi agendada para a quinta-feira, 15/janeiro, como forma de expor a insatisfação das demais categorias que compõem a Polícia Civil, bem como os integrantes das polícias Militar, Penal e agentes socioeducativos. E como vimos, o protesto aconteceu na capital paraibana, em frente à Granja do Governador.
O “FREIO”
Porém, na terça-feira, 13/janeiro – dois dias antes do movimento, portanto – o procurador-geral do estado, Fábio Brito (o mesmo que intermediou o acordo judicial dos delegados), se reuniu com o Sindspol (o sindicato dos policiais civis) e entidades representativas das demais categorias da PCPB que não estão incluídas nessa conquista dos delegados. Estamos falando de investigadores, escrivães, peritos e seus auxiliares; papiloscopistas; necrotomistas; agentes operacionais; etc.
Toda essa turma, que, teoricamente, estaria nas ruas no dia 15, decidiu não participar da mobilização, após ouvir as alegações apresentadas por Fábio Brito, na reunião da terça-feira, 13. Em contato comigo, o presidente do Sindspol, Antonio Erivaldo, explicou por que não aderiu ao movimento da quinta-feira, 15.
“Hoje, o SINDSPOL-PB e a maioria das associações da Polícia Civil permanecem no Fórum das Forças de Segurança Pública da Paraíba. No entanto, estão temporariamente ausentes dos atos públicos, optando por reabrir as negociações e o diálogo com o governo, que haviam sido suspensos”, declarou.
QUEM FOI AO MOVIMENTO?
Portanto, a única entidade representativa da Polícia Civil presente no movimento foi a Associação dos Policiais Civis de Carreira (Aspol), que fez volume com os policiais das outras forças de segurança. No mais, pelo menos dentro da PC paraibana, foi dado um voto de confiança ao que o governo trará de possíveis propostas no dia 26 de janeiro, data da próxima reunião com os investigadores, peritos, auxiliares de peritos, agentes operacionais, necrotomistas, papiloscopistas, etc.
RESUMO DA ÓPERA?
1 – Não, não foi “aumento para os delegados”. Foi decisão judicial.
2 – Sim, essa decisão judicial abriu um fosso na Polícia Civil que, acredite, não tem condições de se sustentar por muito tempo.
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Saulo Nunes é jornalista, escritor e policial civil
