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O aumento de 8% para 44% de vagas nas UTIs é bom ou ruim? E quando assunto é ‘polícia’?


Por Saulo Nunes 

Não sei se já mudaram o conceito de ‘notícia’ - ou se o que me ensinaram na faculdade de Jornalismo estava errado -, mas pelas minhas lembranças, o termo diz respeito àquilo que é ‘novo’, ‘diferente’, ‘incomum’. Lembro-me até de um velho exemplo que os professores citavam para reforçar a aula: “Um cachorro morder um homem não é notícia. Um homem morder um cachorro, aí sim, é notícia”.

Pois bem. Na última quarta-feira, 13 de outubro, o Instituto Sou da Paz divulgou uma pesquisa sobre os índices de elucidação de homicídios no Brasil e, até para a minha surpresa (que costumo pesquisar o tema), nós já alcançamos 44% de esclarecimentos dessas mortes violentas. Isso mesmo. “Já alcançamos!” Com essa força de expressão.

Para quem acha 44% pouca coisa - como li em várias manchetes de portais país afora -, nós passamos mais de dez anos sendo bombardeados com a informação de que “O Brasil elucida apenas 8% dos homicídios”. Vá ao Google e faça um teste com esses termos. E eis que, ‘do nada’, agora somos 44% de assassinatos desvendados.

Na minha inocente compreensão de ‘notícia’, o destaque deveria estar no aumento positivo dos índices. Afinal, ter um desempenho baixo nessa história - os tão disseminados “8%” - já foi dito e repetido milhares de vezes, ano após ano (façam o teste no Google). O que é novo, diferente e incomum no assunto em tela foi o salto de 8% para 44%. Concordam?

Mas ignorando o fator positivo desse bom crescimento, muitos grandes órgãos de imprensa do país preferiram insistir nos termos [a meu ver] mal colocados, do ponto de vista de informação, em suas manchetes. Para piorar, foi uma farra de CTRL C + CTRL V. 

Vejamos:  

- Correio Braziliense: Apenas 44% dos homicídios são esclarecidos no Brasil

- Carta Capital: Brasil esclarece apenas 44% dos homicídios 

- O Globo: Brasil esclarece menos da metade dos homicídios , diz pesquisa 

- Uol: Brasil esclarece apenas 44% dos homicídios, segundo Instituto Sou da Paz

- Isto É: No Brasil, apenas 44% dos seus homicídios são esclarecidos 

Censura?

É claro que a imprensa deve ser livre para se expressar da forma como quiser (dentro da legalidade, óbvio). Isso tem que ficar bem claro. Mas o que estamos tentando discutir aqui é o conceito de ‘notícia’. Um hospital que consegue sair de 8% para 44% de vagas de UTI disponíveis para tratar da Covid-19 é uma boa notícia em qualquer lugar do mundo.  

Já pensou um político-candidato qualquer saltar de 8% para 44% de aceitação popular? E o que dizermos de um aumento salarial nesses mesmos patamares? Bom... Acho que não preciso me esforçar mais com comparações.

“44% ainda é pouco”

Alguém pode - e vai - argumentar que “44% de elucidação de homicídios ainda é um índice baixo, quando comparado com os números de países desenvolvidos, que variam de 70% a 90% ou mais”. E eu concordo. Mas aqui, nós chegamos na segunda ‘vistas-grossas’ da grande imprensa nacional com relação ao debate. 

O próprio estudo do Sou da Paz informa - com pouco destaque, para variar - que a maioria dos assassinatos ocorridos nos países de primeiro mundo acontecem dentro de um ambiente familiar. “Marido matando esposa”; “Esposa matando marido”; “Sobrinho matando tio”; etc. É a badalada violência doméstica do Brasil. 

E o menos experiente investigador de uma Delegacia de Homicídios vai nos confirmar que os assassinatos em ambiente doméstico são os mais fáceis de se investigar, pois o crime já nasce praticamente elucidado. Todo mundo sabe quem é o(a) autor(a) do delito. Por vezes, o(a) assassino(a) já se entrega à polícia, quando não resolve se matar também. 

Muito diferente do Brasil, onde a maioria dos homicídios é orquestrada e executada pelo tráfico de drogas e o crime organizado, conjuntura totalmente adversa do fácil trabalho no primeiro mundo. Não vou nem detalhar as condições de aparelhamento nas polícias e a demanda de serviço entre as Nações (brasileiros matam muito mais do que os estrangeiros dos países comparados).  Como diz outra expressão popular: “O bom no bom é bom demais”.

O que é notícia?

- “Brasil salta de 8% para 44% na elucidação de homicídios”

- “Elucidação de homicídios no Brasil chega a 44%”

- “Se mantiver o ritmo, Brasil poderá atingir números de primeiro mundo na elucidação de assassinatos”

Longe de querer tolher a livre manifestação de interpretação na imprensa, mas do ponto de vista de ‘notícia’, os números do Sou da Paz revelam muito mais avanço do que estagnação. 

Para concluirmos, convido para uma reflexão:

“Quais são os percentuais de elucidação de homicídios no Brasil, quando se trata de violência doméstica?”...

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PERFIL

Saulo Nunes é formado em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ingressou via concurso público no sistema penitenciário do estado em 2009, onde permaneceu como policial penal até o ano de 2015. A partir daí, também após aprovação em concurso, passou a trabalhar como Investigador da Polícia Civil. É autor de Monte Santo: A casa de detenção de Campina Grande
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