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Os PRFs mortos no Ceará e a ocorrência no Calçadão de Campina Grande


Por Saulo Nunes

Já deve ter chegado ao seu aparelho celular as imagens de dois policiais rodoviários federais mortos nesta quarta-feira, 18 de maio, ao tentarem imobilizar um homem - que seria um ‘andarilho’ -, em uma rodovia no estado do Ceará. As versões ainda são conflitantes em alguns pontos, mas pelo menos um dos vídeos disseminados mostra quando os dois PRFs tentam ‘agarrar’ o sujeito. Numa rápida luta corporal, o assassino toma a arma de um dos policiais, atira e mata os dois servidores federais. Metros à frente, ele acaba morto por um terceiro policial, que estava à paisana.

A atividade policial é tão delicada no Brasil, que um desfecho como este é capaz de inspirar dezenas de textos/opiniões sob focos diversos. Exemplos? 

- “Quais os riscos de policiais [armados] ‘se agarrarem’ com um suspeito qualquer?”; 

- “Determinadas situações justificam ou não que policiais atirem em pessoas desarmadas?”; 

- “Se, ao contrário, os PRFs tivessem matado o andarilho [desarmado], como seria a repercussão?”;

- “Nunca se esqueça: os Mapas da Violência da vida sempre estampam o alto número de mortes causadas por policiais, sem darem detalhes de como tudo aconteceu”.

Enfim. Como se vê, o desfecho dessa tragédia no Ceará abre margens para muitos esclarecimentos. E eu vou aproveitar a oportunidade para lembrar de uma situação que aconteceu no famoso ‘Calçadão da Cardoso Vieira’, no Centro de Campina Grande. 

Entre 2016 e 2017; não lembro exatamente. A Polícia Civil recebeu uma denúncia formal de que uma mulher estaria “explorando seus filhos” no mencionado Calçadão. Investigadores da Delegacia da Infância foram até o local e constataram que a suspeita liderava uma banda de forró (estilo pé-de-serra). As crianças/adolescentes eram os músicos do grupo.

Os policiais tentaram falar com a mulher numa boa, chamando-a para irem à delegacia, esclarecer os fatos. Ela, porém, preferiu  inflamar os frequentadores do Calçadão, dizendo coisas do tipo “estou sendo presa por tentar garantir o pão dos meus filhos”. Foi o suficiente para dezenas de pessoas se rebelarem contra os policiais, agredindo-os verbalmente e até formando uma espécie de “cordão de isolamento” (leia-se: impedir o trabalho da polícia) para evitar a condução da mulher à Central de Polícia.  

Naquele dia, eu atuava na Delegacia de Homicídios, mas eu e outro colega fomos chamados pelos investigadores da Delegacia da Infância para dar um um apoio. E no momento em que vi aquele povo todo ‘se levantando’ contra nós, policiais, a primeira reflexão que me veio à mente foi:

“Nós, policiais civis, não trabalhamos com gás de pimenta nem arma de choque. É calibre .40 e fim de papo”. Se essa preocupação não diz muita coisa para você, prezado leitor, imagine, então, se eu e outros policiais tivéssemos que sacar as armas naquele dia?

Imagine se, como no caso dos PRFs no Ceará, surgisse algum louco do nada e inventasse de tomar uma arma de nossos policiais. E aí? 

- Segurar um louco com as mãos?

- Atirar em um homem desarmado que estava apenas “evitando a prisão de uma mulher trabalhadora”?

- Tentar convencer um homem [agora armado] a soltar sua arma e se entregar? 

E aí, prezado(a) leitor(a)? 

Peço que não demore muito pensando na resposta, porque na vida real as tragédias acontecem em questão de segundos. 

E no dia de hoje, dois policiais tombaram quase que num piscar de olhos. 

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PERFIL

Saulo Nunes é formado em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ingressou via concurso público no sistema penitenciário do estado em 2009, onde permaneceu como policial penal até o ano de 2015. A partir daí, também após aprovação em concurso, passou a trabalhar como Investigador da Polícia Civil. É autor de Monte Santo: A casa de detenção de Campina Grande
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