POSSO PERGUNTAR? | Quatro estranhezas que rodeiam o caso Maria da Penha - Saulo Nunes


O Youtube está repleto de entrevistas concedidas pela mulher que diz ter sido vítima de uma tentativa de assassinato supostamente cometida pelo então marido, o colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, no ano de 1983. Sim, digo ‘supostamente’ porque podemos (P-O-D-E-M-O-S) estar diante de uma das maiores mentiras já criada – e mantida – pelo ‘sistema’ no Brasil. 

Calma. Eu disse “podemos” (possiblidade). Não estou afirmando nada [ainda]. Essa minha quase teima em nadar contra a maré é por causa da experiência de 17 anos adquirida na investigação de crimes diversos; na leitura/pesquisa de assuntos correlatos; na vivência por seis anos em presídios, batendo papo com quem já matou sorrindo. Óbvio que eu nunca investiguei o caso ‘Maria da Penha’, mas é quase como se fosse. As entrevistas que ela concede a programas diversos não dizem tudo sobre o fato, mas despertam reflexões até para um investigador iniciante. 

“NUNCA SOFRI AGRESSÕES FÍSICAS”

No texto de hoje, vou elencar pelo menos três declarações dadas por Maria da Penha, que já são bem disseminadas nos veículos de comunicação. A primeira delas é “Eu nunca sofri agressões físicas”. Ora... Os milhares de supostos especialistas em segurança pública replicam todos os dias – dia e noite – que “tudo começa com um grito, depois um empurrão, depois um soco, depois uma surra, depois o crime letal”; “Por isso, denuncie logo antes que aconteça o pior”, completam os gurus do assunto.

Aí me vem Maria da Penha, a vítima mais famosa do Brasil, e diz para o planeta Terra inteiro assistir que “eu nunca sofri agressão física”. Ou seja, se Maria estiver falando a verdade, o seu ex-marido é um ponto muito fora da curva no perfil traçado pelos “especialistas”. De acordo com Penha, seu quase assassino saltou de um beliscão nunca aplicado para um tiro de espingarda nas costas.

Tá, tudo bem, o perfil de Antônio relatado pela própria Maria é algo esquisito, mas perfeitamente possível. Não devemos excluir essa possibilidade. Um investigador não pode se deixar levar pelo alvoroço de formar conclusões baseadas apenas em um único detalhe estranho na trama investigada.

“ELE TENTOU ME MATAR DUAS VEZES”

Aqui, a história começa a exalar odores. Nesses 17 anos de sorriso amargo nos bastidores do crime, eu aprendi que “quem quer matar mata”. Ainda mais sob a facilidade de um casal que dorme junto toda santa-diabólica noite. Eu sei que é duro afirmar isto, mas o ser humano tem de ser muito incompetente para não conseguir (caso queira) tirar a vida do(a)companheiro(a) com quem divide o colchão. Tendo coragem e vontade – o que, segundo dizem, seria o caso de Heredia –, matar alguém nessas circunstancias é um dos crimes mais fáceis de ser consumado. É só ter coragem e vontade, porque meios e oportunidade não faltam. 

No caso de Antonio, ele tentou a primeira vez com o tiro em Maria. Não conseguiu. Depois, passou cerca de quatro meses morando com a ainda esposa, sob o mesmo teto, ela em uma cadeira de rodas. Heredia teve tempo, coragem, vontade e oportunidade. E mesmo assim falhou de novo? 

Então, esqueçamos Penha por enquanto. Qualquer pessoa, homem ou mulher, que me relate ter sido vítimas de duas ou mais tentativas de homicídio/feminicídio, em dias diferentes, por parte do(a) companheiro(a) com quem dorme junto, verá minha testa franzir sem titubear. 

Mas tá... tudo bem... Tentar matar o marido/esposa duas ou mais vezes nas circunstâncias descritas acima é algo esquisito, mas perfeitamente possível. Um investigador não pode se deixar levar pelo alvoroço de tomar decisões baseadas apenas em dois detalhes estranhos na trama investigada.

“ELE SIMULOU UM ASSALTO EM CASA”

De acordo com a versão de Maria da Penha, naquele fatídico maio de 1983, quatro homens entraram na residência do casal, por volta das 5h, simularam um roubo e atiraram contra ela. Esse teria sido o plano arquitetado por Antonio Viveros para se livrar da esposa sem deixar rastros. 

Viveros, nos raros espaços que consegue em canais do Youtube para dar sua versão, ‘jura’ que naquele dia ele tomou um tiro à altura do peito, o que confirmaria a tese da casa invadida por assaltantes. Em um dessas entrevistas, Antonio chega a afastar a camisa para mostrar onde a munição o perfurou. Mas a cicatriz, pelo menos para mim, também não é suficiente para me convencer de nada. É uma mera marca no corpo. No entanto, não deixa de ser ponto de partida para desdobramentos da investigação. 

O que diz o processo sobre isso? Tem laudo? Foi ferimento por arma de fogo mesmo? O projetil foi encontrado? O que diz o processo sobre esse ferimento? Em se confirmando tudo isso, outro vento azedo invade minhas narinas sem pedir licença: 

“Um homem que simula um roubo para matar sua esposa manda o ladrão atirar no peito dele mesmo (do simulador)? Isso é para dar mais ares de realidade ao plano assassino? Antônio queria se livrar de Maria ou morrer junto com ela? 

Nos casos de ferimento simulado, quais as partes do corpo mais escolhidas pelo simulador da trama? O pé? A mão? Um tiro de raspão na perna? Ou um disparo a 10 centímetros do mamilo? Cá pra nós: as polícias têm o zelo/cuidado de anotar esses detalhes da investigação ou essas informações são simplesmente ignoradas?  

NEM FERNANDINHO BEIRA-MAR!

Até aqui, eu listei três “aspectos estranhos” que aguçam a curiosidade de qualquer investigador em seu primeiro ano de profissão, independentemente de quem seja a vítima. Sendo Maria da Penha ou qualquer Maria do bairro, essas três situações me fazem pensar... pesquisar... comparar... analisar... 

Porque em qualquer processo científico (sim, investigação deve ser Ciência), três fatores estranhos já exigem cautela por parte de quem está buscando pela verdade dos fatos. E como se não bastasse, me surge uma ‘quarta’ esquisitice nessa história toda: a CENSURA.

Apesar de ser um dos temas mais em alta no Brasil já há um bom tempo, nunca nenhuma emissora de TV – nem portais, nem programas de rádio nem nada, exceto poucos canais no Youtube – deram oportunidade para Antônio Heredia contar a sua versão. 

Já vejo alguém alegar que “criminoso não merece ser ouvido”, mas não é assim que tratamos Fernandinho Beira-Mar, Marcinho VP, Suzane von Richthofen, o casal Nardoni, Elize Matsunaga... Todos eles – e outros tantos – tiveram a chance de dizer o que queriam na grande mídia brasileira. Qual é a TV no Brasil que não quer uma exclusiva com Marcola? Pois é...

RECADO AOS MAUS LEITORES

Sim, o texto de hoje é bem turbinado de suspeições, mas não por ser Maria da Penha. Já acompanhei dezenas de outras vítimas – ‘anônimas’ e de ambos os sexos – com histórias esquisitas, desconexas, que ‘não batem’. A suspeição, portanto, é reação natural do investigador que não se deixa levar por emoções. 

E seja qual for a real história de Maria e Antonio, nada exclui a necessidade de temos uma lei forte e implacável contra os covardes que se aproveitam de sua força bruta para agredir mulheres. As ‘esquisitices’ do caso Maria da Penha não negam o cenário de violência a que milhares de mulheres são submetidas no Brasil e no mundo. O problema é real, existe, mas precisa ser tratado com Ciência, se não for pedir muito. 

Porém, se essas quatro estranhezas tiverem fundamento, o Brasil pode ter escolhido, entre milhões de fatos reais, um que não reflete a justiça pela qual dizemos clamar.

Que 2026 nos traga as respostas.  

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Saulo Nunes é policial civil, jornalista e escritor

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