Campina Grande, 13 de janeiro de 2026
Se você como empreendedor ou gestor de empresa ainda acredita que inovação é algo para "quando sobrar tempo" ou "quando o orçamento permitir", se prepare, 2026 pode ser um ano difícil. O que de alguma forma separa empresas que crescem daquelas que estagnam não é mais o acesso à tecnologia, é a capacidade de transformar iniciativas e ferramentas em resultados reais. Chatbots, posts sobre ESG ou projetos-piloto desconectados da estratégia central do negócio não tem mais efeito. A inovação ornamental acabou, chegou a hora da inovação estrutural.
Da vitrine ao centro da operação
Durante anos, empresas brasileiras trataram IA e transformação digital como enfeite institucional. Segundo pesquisa da AmCham Brasil, 61% das empresas ainda não conseguem mensurar o impacto real da inteligência artificial em suas operações. O problema não é falta de tecnologia, mas ausência de integração à estratégia de negócio.
O empreendedorismo brasileiro segue vibrante: o Sebrae registrou 3,9 milhões de novas empresas em 2025, sendo 97,6% micro e pequenos negócios, com mais da metade faturando igual ou acima de 2024, mas o dinamismo vem acompanhado de uma cobrança clara do mercado, crescer exige diferenciação real, não apenas presença digital. O CB Insights State of AI Reports, indicou que globalmente, startups de IA atraíram 89,4 bilhões de dólares em 2025, representando 34% de todo investimento de venture capital, mesmo sendo apenas 18% das empresas financiadas. Indicando que o capital está mais seletivo. Inovação assim como a “Qualidade” em sua época viraram pré-requisito, não diferencial.
IA que decide e finanças que conectam
A virada da inteligência artificial em 2026 não está na novidade tecnológica, mas no papel que ela assume. Saímos da era do chatbot passivo e entramos na era dos agentes de IA, sistemas que tomam decisões, executam processos completos e interagem autonomamente com toda a cadeia. Fintechs já usam IA para aprovar crédito em segundos, detectar fraudes antes que aconteçam e personalizar ofertas com precisão quase cirúrgica. Para o pequeno negócio, a pergunta urgente é: como captar e usar dados e IA para decidir melhor, aplicando da precificação ao estoque, do crédito ao atendimento, sem perder o olhar humano sobre o cliente?
Enquanto isso, a infraestrutura financeira digital brasileira amadureceu numa velocidade impressionante. Em dados, de março de 2025, do Banco Central, o Pix movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024, quase 60% a mais que no ano anterior, com 63,4 bilhões de transações. No primeiro trimestre de 2025, operações B2B já respondiam por 46% do volume financeiro total. Não estamos falando de fenômeno de consumo, mas de infraestrutura empresarial consolidada. Somem a isso o Open Finance avançando e o Drex ou Real Digital, chegando em 2026 com tokenização de ativos e contratos inteligentes. O resultado é uma rodovia financeira pronta para ser explorada.
Mas ter acesso à infraestrutura não basta. Estudo recente sobre governança em Smart Cities no ABC Paulista, região com certificação ISO e infraestrutura digital avançada, revela uma lacuna crítica: mesmo municípios tecnologicamente equipados carecem de dashboards integrados para monitorar indicadores de governança, impedindo o acesso real a informações concretas para mensurar os avanços reais nos indicadores de inovação. Mesmo assim, se continua agindo de forma reativa e não estratégica. Essa é a diferença entre ter tecnologia e governar com tecnologia. A mesma lógica vale para empresas: não adianta ter Pix, Open Finance, contratos inteligentes, dados e IA se você não consegue medir o que eles entregam ao seu negócio.
Consumidor consciente, experiência humana
O consumidor de 2026 mudou. Ele quer negócios éticos, sustentáveis e transparentes, busca experiências que despertem emoção, memória e pertencimento. A economia da experiência sensorial ganha força total: produtos multissensoriais que envolvem toque, aroma, som, criam conexões mais profundas que qualquer campanha digital. São os "micromomentos de vislumbres", como definido pelo Sebrae: instantes de paz, alegria ou segurança que transformam a rotina e criam fidelização genuína.
Em um cenário de excesso de oferta e canais saturados, o cliente escolhe marcas que entregam utilidade, coerência e experiências humanizadas. Empreendedores que combinarem automação inteligente com atendimento próximo e sensível terão vantagem competitiva clara. Além disso, novos arranjos de vida exigem novos produtos, novos serviços, e novos modelos de negócio. O crescimento dos DINKWADs (casais com duas rendas, sem filhos, mas com pets) e da coabitação entre amigos demanda soluções que vão além do modelo tradicional. O design deixa de focar em "idades" e passa a atender "estágios de vida", ampliando mercados e criando nichos inexplorados.
Segmentos de oportunidade
Para 2026, análises do Sebrae identificam onde a maturidade da inovação encontra demanda real. Saúde e bem-estar crescem impulsionados pelo envelhecimento populacional e busca por equilíbrio emocional, combinando tecnologia com autocuidado e acessibilidade. Sustentabilidade deixa de ser tendência e vira necessidade, com biomateriais, logística reversa e modelos de reparo consolidando a economia circular. Educação responde à necessidade de requalificação digital em formatos híbridos e contínuos. Alimentação saudável valoriza rastreabilidade, origem transparente e cadeias curtas ligadas a produtores locais.
Tecnologia e inovação democratizam automações e IA aplicada a problemas reais, antes restritas a grandes empresas. Serviços criativos digitais profissionalizam a economia da influência e da autenticidade de marca. Comércio eletrônico cresce, mas agora exige experiências figitais (físico mais digital) e personalização profunda. Esses segmentos são respostas diretas às três forças que moldam 2026: infraestrutura tecnológica madura, finanças digitais integradas e consumidores que cobram propósito real.
Brasil no mapa global
O Global Innovation Index 2025 mostra países emergentes ganhando protagonismo, com novos polos de inovação surgindo fora do eixo tradicional. O Brasil aparece como ecossistema vibrante, forte no empreendedorismo e sistema financeiro digital avançado. Dados mostram que nove das doze startups com maior potencial de se tornarem unicórnios na América Latina são brasileiras. Empresas brasileiras ligadas à IA receberam quase 870 milhões de dólares em 120 rodadas recentes. O que significa que existe massa crítica.
Mas a mesma onda que abre oportunidades aumenta o nível de exigência. O país será cobrado por capacidade de transformar ciência em produto, dados em serviços e discurso em impacto mensurável. Clusters brasileiros já aparecem entre os 100 principais polos de inovação globais, mas o desafio agora é passar de "estar no mapa" para "ditar tendências". Cidades e estados que conseguirem orquestrar universidades, startups, corporações e governo em torno de agendas concretas terão vantagem desproporcional. Não basta mais ter ecossistema; é preciso saber orquestrá-lo e entregar resultado.
Competências do empreendedor de 2026
Se o cenário mudou, o empreendedor também precisa mudar. O Sebrae identifica cinco competências essenciais: competência digital integrada à sensibilidade humana, criando soluções que ampliem capacidades sem substituir o essencial das relações. Inteligência emocional e autoconhecimento, fundamentais em mercados voláteis onde ler contextos e manter equilíbrio se tornam diferenciais estratégicos. Aprendizado contínuo e criatividade, cultivando curiosidade e testando rápido num mundo onde o que funciona hoje pode estar obsoleto amanhã.
Visão crítica e pensamento sistêmico permitem entender como tecnologia, finanças, sustentabilidade e comportamento se conectam, criando soluções mais robustas. Ética e responsabilidade social como pilares, não como discurso, transparência sobre dados, origem de produtos e impacto ambiental deixaram de ser opcionais. Essas competências separam negócios que escalam com confiança daqueles que crescem no impulso e quebram na primeira turbulência.
Pesquisa com gestores públicos brasileiros mostra que decisões em ecossistemas de inovação ainda são majoritariamente intuitivas, baseadas em experiência individual e desconectadas de indicadores estruturados. Essa fragmentação, agravada por descontinuidade política e ausência de memória institucional, explica por que tantas iniciativas fracassam no longo prazo. Para o empreendedor, a lição é clara: não basta ter acesso a ferramentas; é preciso institucionalizar processos, documentar aprendizados e criar governança que sobreviva a ciclos políticos e trocas de gestão.
O que fazer em 2026
Empreender em 2026 não é "entrar na onda da IA" nem "aproveitar o hype do Drex". É construir negócios que conversem com um mundo digital, financeiro e socialmente mais complexo, onde tecnologia é meio, não fim. Prefira profundidade a dispersão: menos frases na moda, mais disciplina na execução; menos apresentações sobre transformação digital, mais clareza sobre qual problema real você resolve e como usa tecnologia melhor que qualquer concorrente.
Integre IA, dados e finanças digitais ao dia a dia do negócio, sempre a serviço de pessoas reais. A infraestrutura está pronta, o Pix consolidado, Open Finance amadurecendo, Drex chegando, IA acessível. A rodovia está construída; agora é sobre que negócios vão trafegar nela e a que velocidade. Crie experiências que despertem emoções, não apenas eficiência, combinando automação com toque humano, velocidade com cuidado, escala com personalização. Consumidores estão sobrecarregados de tecnologia; o que fideliza agora é criar momentos de alegria, surpresa e pertencimento.
Participe ativamente do ecossistema, buscando conhecimento, parcerias e redes, em ambientes complexos, quem conecta vence, e isolamento é o caminho mais curto para a irrelevância. Incorpore sustentabilidade, transparência e ética desde o desenho do negócio, não como adicional, mas como DNA. Bioeconomia, economia circular, rastreabilidade e responsabilidade social são critérios de competitividade, não de marketing.
A virada estrutural
Se 2026 é o ano da maturidade da inovação, o empreendedorismo brasileiro tem diante de si uma responsabilidade rara: provar que é possível crescer combinando eficiência, tecnologia e impacto. Não apesar das turbulências, mas por saber navegar nelas com lucidez, propósito e disciplina. O mercado não vai premiar quem fala bonito sobre inovação. Vai recompensar quem transforma tecnologia em resultado, dados em decisões assertivas, e propósito em ação.
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Carlos Alejandro Rueda Angarita - Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora, Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande.
