Há mais de dez anos – meados de 2014, para situar melhor –, eu escrevi um texto com destaque para a ‘nova vida’ que o empresário Nelsivan Marques de Carvalho passou a ter desde o dia em que foi preso pela Polícia Civil em Campina Grande. Para quem não lembra, Nelsivan foi condenado por mandar assassinar o casal Washington Luís e Lúcia Santana, no dia da festa de casamento dele (de Nelsivan). O casal, inclusive, era padrinho de casamento do noivo. O crime aconteceu no bairro do Catolé, quando Washington e Lúcia saíram da casa de recepções onde acontecia a festa.
No texto à época, eu fiz menção a uma mudança ‘simples’ – e drástica – que o mandante do crime viveria a partir de então. Empresário e, portanto, acostumado a dormir em uma cama aconchegante todas as noites, o criminoso agora não teria mais direito sequer a um copo de água gelada nas tardes quentes da Penitenciária Padrão de Campina Grande, para aonde foi levado após o desfecho das investigações.
Isso mesmo que você leu. Não existe geladeira nas celas das penitenciárias. Logo, bateu a sede? A água disponível é a que está em garrafas pet encostadas em algum recanto do pavilhão. Para ser feliz. A exceção fica para os detentos que exercem alguma atividade laboral no presídio, que, por este motivo, podem circular livremente no estabelecimento e, com habilidade, conseguir uns goles de água geladinha na cozinha dos presos.
Outra alternativa é somente nos dias de visita, quando o familiar do preso leva água, suco e refrigerantes para o visitado. Se a fila na entrada do presídio não demorar muito, o preso poderá saborear a bebida ainda em temperatura fria. No mais, é beber água ‘quente’.
O TESTEMUNHO DE FABIANO
Há sete dias, o radialista Fabiano Gomes – um dos mais conhecidos na Paraíba – concedeu uma entrevista ao Sistema Diário de Comunicação. A conversa foi transmitida pelo Youtube e está mantida no canal da emissora, na plataforma.
Entre os pontos da pauta, Fabiano falou sobre o período em que esteve preso no presídio de segurança máxima PB-1, em João Pessoa, em agosto de 2018. E eis que da boca do próprio radialista sai a seguinte declaração:
“Pensando sete anos depois, a prisão também me fez bem. Eu aprendi a dar valor a um copo de água gelada. Eu passei 35 dias tomando água da torneira no PB-1. Eu saía de minha casa irritado quando o chuveiro quente dava um problema. Passava o dia estressado, brigava com minha mulher... Lá [no presídio] eu tomava banho de mangueira! Então, você aprende a dar valor a pequenas coisas da vida que você não dava antes”, relatou.
Água gelada é só um exemplo. No geral, a prisão, por mais ‘especial’ que ela possa parecer, será sempre um ambiente de muitas restrições. A comida, produzida por detentos e em larga escala, passa longe do tempero de casa; a dormida é compartilhada com dezenas de outros encarcerados; o banheiro, também coletivo, oferece privacidade mínima; idem para o dia de visita íntima. Não sei no PB-1, mas no meu tempo de presídio Serrotão, era comum os pavilhões abrigarem mais de dez casais em seus momentos de relações íntimas, ao mesmo tempo, separados apenas por cabanas feitas de lençóis.
Enfim, vida de preso não é fácil. Quem passa por essas experiências e não vê problemas em retornar ao ambiente certamente tem sérios desvios de personalidade.
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Saulo Nunes é jornalista, escritor e policial civil; é ex-agente penitenciário
