Por UIRÁ COURY
Em Brazuela, país imaginário de realidade excessiva, a democracia virou diminutivo carinhoso — Demogracinha — como se a infância justificasse as travessuras. Aqui, onze iluminados supremos acordam cedo, tomam café forte e decidem o dia: hoje cria-se uma lei, amanhã interpreta-se outra, depois de amanhã prende-se alguém por excesso de opinião. Tudo com a candura de quem jura proteger o Estado “democrático” de Direito, essa entidade etérea que, como anjo barroco, só aparece quando convém.
O cronista observa da calçada, com a ironia de quem já leu muito epitáfio. Os onze — oráculos de toga, sábios por designação — falam difícil, escrevem mais difícil ainda, e assim governam por parágrafo. Em Brazuela, a gramática manda mais que o voto; a vírgula é soberana, o ponto final, perpétuo. Se o texto diz uma coisa hoje, amanhã dirá o contrário, com a mesma convicção e uma nota de rodapé tão explícitas quanto aqueles “romances de banca”.
Brazólia, a capital, não é cidade: é um grande salão a Céu azul sem manchas. Nele, circula uma aristocracia burocrata de tapete macio e discurso severo, que detesta o mercado enquanto janta com ele, nem sempre às escondidas. É gente que odeia privilégios alheios, mas estima os próprios com zelo monástico. Há encontros discretos, risos nem sempre em voz baixa, brindes à “institucionalidade”, à “normalidade” e à “soberaniiiiiia”. E, no fundo da taça, um reflexo: o conluio. Nada vulgar; tudo elegante, como convém às grandes causas, nem sempre imbuídas dos melhores interesses Republicanos.
As altas cortes de Brazuela (altas no nome e, claro, na conta!!!) funcionam numa verdadeira simbiose como catedral e cartório. Ali se batiza o “certo” e se casam as conveniências, tudo convenientemente pelo bem de Brazuela e dependendo de quem paga. Escritórios bem afiliados orbitam como satélites dourados, onde seus Alecrins traduzem sentenças em contratos e princípios em honorários. Não é corrupção, claro!; mas “intelectualidade” e sofisticação! O dinheiro não compra despachos monocráticas, apenas as acompanha, como todo bom assessor.
Do outro lado da mesa (ou da banca), está Das Kapital — com K mesmo, para parecer estrangeiro — que sorri de soslaio. Oligopólios de commodities e bancos concentradores, esses patriotas silenciosos (ou silenciados?), entendem a Demogracinha melhor que ninguém. Sabem que estabilidade é previsibilidade, e previsibilidade é quando a regra muda, mas muda sempre em direção aos mesmos interesses. Investem no futuro com a segurança de quem conhece o passado e desfruta o presente de acessos privilegiados.
O povo? Ah, o povo é estatística e figurante na Demogracinha. Vota em quem o sistema permite aparecer, aplaude quando mandam aplaudir, indigna-se seletivamente quando convém (ou quando se paga), e trabalha para pagar a conta da sinalização de virtudes alheias. Quando reclama, explicam-lhe que tudo é para o seu bem, uma fórmula bem batida e infalível desde o SPQR. Em Brazuela, discordar é um esporte algo radical; concordar, um hábito de sobrevivência.
Há quem chame isso de autoritarismo. Injustiça. Autoritarismo é grosseiro; a Demogracinha é fina. Ela não manda calar; pois “educa” o silêncio. Não censura; orienta a “verdade”. Não persegue; “protege” o povo (esses bárbaros!) de si mesmo. A Demogracinha parece com o réptil matreiro dos contos de Rudyard Kipling, ela te dá um abraço apertado que impede o movimento, mas garante “afeto” institucional.
O cronista fecha o caderno e paga o café. Sai com a sensação de ter vivido num país onde a lei é poesia concreta: muda conforme o olhar do leitor, mas sempre assinada pelos mesmos poetas. Ah, Lei… Ora a Lei! Em Brazuela, vive-se a Demogracinha — pequena no nome, grande no mando. E como toda gracinha que se repete, já não provoca riso: provoca hábito. E hábito, como se sabe, é um forma bem eficiente de se governar.
Disclaimer
Esta obra é, oficialmente, integralmente ficcional.
Os personagens, fatos, lugares, instituições, decisões, discursos, silêncios eloquentes e coincidências narradas pertencem exclusivamente ao território da imaginação — ainda que, por ironia do destino ou falha da realidade, possam eventualmente lembrar algo, alguém ou algum lugar fora destas páginas.
Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas, falecidas ou momentaneamente célebres, bem como com fatos, eventos, decisões administrativas, judiciais, políticas ou administrativas de qualquer natureza, será sempre involuntária, não intencional e desprovida de propósito representativo, acusatório, descritivo ou opinativo sobre a realidade objetiva.
Nada aqui deve ser interpretado como relato factual, imputação de conduta, juízo de valor, crítica direta, indireta, subliminar ou metafórica a indivíduos, instituições ou acontecimentos reais. Caso o leitor identifique paralelos com o mundo concreto, recomenda-se cautela: trata-se de coincidência, projeção interpretativa ou excesso de imaginação — jamais de referência deliberada do autor.
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Uirá Coury é médico

