Campina Grande, 27 de abril de 2026
Existe um setor econômico que fatura mais do que cinema e música somados, cresce dois dígitos ao ano, tem mais de 3,6 bilhões de consumidores no mundo e ainda assim é tratado como hobby por boa parte dos gestores públicos e privados. Esse setor são os games, e a Paraíba está, discretamente, construindo as bases para se tornar um polo relevante nessa indústria no Brasil.
O tamanho do jogo que está em disputa
O mercado global de games atingiu US$195,6 bilhões em receita em 2025, com crescimento constante de 3,4% ao ano e uma base de 3,6 bilhões de jogadores, quase metade da população do planeta. As projeções para 2026 superam US$ 386 bilhões, e o horizonte de 2034 aponta para US$ 539 bilhões. Para efeito de comparação, a indústria global de música movimentou US$ 28 bilhões em 2024. Estamos falando da maior indústria do entretenimento do planeta, que está em expansão acelerada.
O Brasil é o décimo maior mercado de games do mundo e o líder absoluto da América Latina. Mais de 100 milhões de brasileiros jogam regularmente, algo como três em cada quatro pessoas. A receita do setor no país deve alcançar US$ 2,8 bilhões em 2026 e superar US$ 5 bilhões até 2030, com crescimento de 10% ao ano. A indústria brasileira já conta com mais de mil estúdios ativos e 12 mil empregos formais. A Geração Z tornou-se a maior consumidora de jogos do país em 2026, segundo a Pesquisa Game Brasil e é também a geração que mais cria, compartilha e se engaja com conteúdo digital.
O Nordeste representa 15% dos estúdios brasileiros, ainda ficando longe do seu potencial, mas a Paraíba quer mudar isso.
Um programa que cria o que o mercado exige
Dentro desse contexto, o Governo da Paraíba tomou uma decisão estratégica pouco comum no Nordeste: investiu R$ 800 mil do Tesouro Estadual para criar o Circuito Game Dev Quest, um programa competitivo de formação de estúdios de jogos independentes no estado, operado pela Secties e pela Fapesq. O modelo é sofisticado. As equipes passam por três fases eliminatórias ao longo de quase um ano: uma fase de formação intensa com workshops e mentoria para 40 equipes, uma segunda fase de desenvolvimento com aporte de R$ 20 mil por equipe para as 20 finalistas, e uma fase final em que as 10 melhores recebem mais R$ 40 mil e suporte direto para lançar seus jogos nas plataformas digitais comerciais.
O programa não está sozinho. As startups passam por um período de 8 a 9 meses de incubação no Parque Tecnológico Horizontes de Inovação (PTHI), para fortalecer os founders e prepará-los ainda mais para seu acesso ao mercado. O resultado da primeira edição foi além do esperado. Mais de 40 startups passaram pelo programa, e seis delas chegaram a representar a Paraíba na Gamescom Latam, o maior evento de desenvolvimento de jogos da América Latina, com títulos como Escola do Volante, Another Shift, Aboxcalipse, Terras do Cordel, Jampa Buggys e Horizonte: O Espetáculo. A segunda edição foi lançada em outubro de 2025, com vencedores previstos para agosto de 2026.
Campina Grande: o argumento poderoso inexplorado
Aqui está um ativo subestimado nessa equação: Campina Grande é membro da Rede de Cidades Criativas da Unesco na categoria Artes Midiáticas, a única cidade do Brasil com esse selo específico. Essa categoria engloba videojogos, realidade virtual e aumentada, arte digital, mídia interativa e instalações tecnológicas. Estar nessa rede significa estar ao lado de Berlin, Austin, Karlsruhe e Linz, centros mundiais referência de arte digital e desenvolvimento de jogos.
O que esse selo realmente representa na prática? Ele abre portas para editais internacionais da Unesco, viabiliza parcerias com universidades e centros de pesquisa europeus e asiáticos, aumenta o poder de atratividade para eventos, festivais e publishers globais, e o mais importante, oferece uma narrativa de legitimidade cultural que eleva o status dos jogos paraibanos de "projetos regionais" para "produções de uma cidade criativa reconhecida internacionalmente". É um diferencial que pouquíssimos estúdios no mundo podem usar, e os da Paraíba ainda não estão usando como deveriam.
As tendências de 2026 favorecem quem começa agora
O momento para os estúdios paraibanos entrar com força no mercado é particularmente favorável. A primeira grande virada é a democratização da produção via inteligência artificial: 87% dos desenvolvedores globais já usam IA para automatizar tarefas como testes de qualidade, geração de arte, balanceamento de jogabilidade e localização de idiomas. Isso reduz dramaticamente o custo de produção para equipes pequenas, exatamente o perfil da maioria dos estúdios do estado.
A segunda tendência é a ascensão dos jogos AA e equipes enxutas. Em 2025, títulos desenvolvidos por equipes de dois a quatro pessoas estiveram entre os mais vendidos do PC global, superando produções com orçamentos milionários. O mercado sinaliza que execução focada e comunidade ativa valem mais do que escala. No mobile, a porta de entrada mais acessível para estúdios emergentes, jogos de estratégia cresceram 21% em receita e o modelo de monetização híbrida elevou a receita dos jogos hiper casuais em 80%.
E há uma tendência que é especialmente relevante para a Paraíba: a busca por identidade cultural como diferencial narrativo. Num mercado global saturado de estéticas europeias e norte-americanas, jogos com mitologia nordestina, estética do sertão, cultura popular, gastronomia local e temáticas regionais têm potencial real de se destacar internacionalmente, assim como Árida: Backlands Awakening já fez ao transformar o semiárido brasileiro em cenário de um RPG reconhecido globalmente.
Como o ecossistema pode se organizar
A Paraíba já tem os ingredientes e pode iniciar preparação da receita ou mais precisamente, a arquitetura que conecta o que cada ator do ecossistema faz de melhor nesta cadeia produtiva contínua.
O caminho começa na formação e na validação, onde o Circuito Game Dev Quest já atua com competência, criando equipes e projetos com qualidade crescente. Mas o programa tem uma limitação natural: termina no lançamento ou antes. O que vem depois? É aí que a conexão com o PTHI precisa ser construída de forma estruturada. Os estúdios que saem do Game Dev Quest com um produto lançado e validado têm o perfil ideal para ingressar em um processo de aceleração, com suporte à gestão, à escalabilidade e ao desenvolvimento do modelo de negócio.
A segunda conexão essencial é entre os estúdios acelerados e os programas de acesso a recursos e mercado do Sebrae/PB. O Sebrae Games oferece conteúdo, trilhas de profissionalização e conexão com publishers, investidores e eventos como a Gamescom, mas só é aproveitado por quem chega preparado, com pitch, documentação de design, versão jogável e projeção financeira. Isso significa que a aceleração no PTHI deve ser aproveitada justamente para preparar os estúdios para essa etapa, transformando o Sebrae no ponto de acesso ao mercado nacional e internacional, e não apenas num programa paralelo.
A terceira e mais estratégica conexão é entre toda essa cadeia e o selo da Unesco de Campina Grande. A AP Games, associação que reúne produtores e desenvolvedores de jogos do estado, como representantes da camada produtiva do setor, pode assumir o papel central aqui, são eles que podem levar o discurso da cidade criativa para dentro dos pitches, press kits e candidaturas a editais internacionais dos estúdios paraibanos. Cada jogo desenvolvido nesse ecossistema deveria carregar explicitamente a identidade de ter o apoio da única cidade do Brasil com o selo de Artes Midiáticas da Unesco, como argumento de diferenciação que abre portas em mercados onde o Brasil ainda é invisível.
Para que tudo isso funcione de forma sustentável, o ecossistema precisa de uma governança setorial real, um comitê de games da Paraíba, todos os player deste segmento, com agenda unificada, calendário coordenado e um discurso institucional comum. Não para criar burocracia, mas para que cada edição do Game Dev Quest alimente o pipeline do PTHI, que alimente o Sebrae Games, que alimente o mercado, que retroalimente o ecossistema com recursos, reputação e novos talentos.
O jogo está rodando, falta o time jogar junto
A Paraíba tem programa estadual com investimento real, um ecossistema de inovação vibrante, universidades com altíssima densidade de pesquisa, a única cidade do Brasil com o selo da Unesco em Artes Midiáticas, uma associação setorial ativa e uma geração de desenvolvedores que está transformando ideias em produtos comerciais lançados nos maiores eventos da América Latina.
O que falta agora não é recurso, nem talento, nem legitimidade, o que falta é a consciência coletiva de que esses pontos dispersos, conectados com intencionalidade estratégica, formam algo muito maior do que cada iniciativa isolada já entregou.
Games não são hobbie, são política industrial. Representam geração de emprego qualificado, exportação de propriedade intelectual e projeção de território no mapa criativo global. A Paraíba tem, hoje, uma oportunidade rara para construir exatamente isso.
O ecossistema tem condições de jogar nessa liga, como atores vamos jogar juntos?
___________________________________
Carlos Alejandro Rueda Angarita - Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, na Carlos Rueda Consultoria, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora, Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande e recentemente Membro Delegado da ALAS – Latin American Startup Alliance | Cohort 2026.
