Campina Grande no mapa mundial da inovação. Nosso ecossistema virou referência científica internacional


Por Carlos Rueda

Campina Grande, 15 de abril de 2025

Há momentos em que uma cidade deixa de ser apenas um endereço e passa a ser uma referência. Campina Grande atravessou um desses momentos em abril de 2026, quando o ecossistema de inovação local, o E.InovCG, figurou como campo central de uma pesquisa científica publicada na Industrial Management & Data Systems, uma das revistas mais respeitadas do mundo em gestão e tecnologia, do grupo Emerald Publishing.

O artigo "Reconceptualizing digital culture as a higher-order capability for digital transformation: insights from innovation ecosystem actors", assinado pelas pesquisadoras e pesquisadores Farveh Farivar, Luisa Campos, Alistair Chong e Nik Thompson, não é apenas mais uma publicação acadêmica sobre transformação digital. É, na prática, um reconhecimento científico internacional de que o que acontece aqui, no coração do Nordeste brasileiro, tem valor de conhecimento para o mundo.

O que o estudo descobriu?

Por anos, o tema "cultura digital" foi tratado nas organizações como um elemento de apoio: algo desejável, mas secundário. O que essa pesquisa faz é uma inversão conceitual profunda: a cultura digital não é uma capacidade entre outras. Ela é uma capacidade de ordem superior, aquela que habilita, sustenta e reconfigura tudo o mais.

Em linguagem mais direta: não adianta investir em tecnologia, contratar talentos ou criar processos ágeis se a cultura da organização, seus valores, seus pressupostos, suas práticas cotidianas não estiverem alinhadas com a lógica digital. A tecnologia segue a cultura, não o contrário.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores combinaram dois movimentos complementares. Primeiro, uma revisão sistemática de literatura seguindo o protocolo PRISMA: de mais de 600 artigos identificados, apenas 23 tratavam cultura digital como conceito central. O campo estava disperso, fragmentado. Havia uma lacuna teórica evidente que o estudo preencheu.

Segundo, e aqui entra o E.InovCG, foram realizadas 33 entrevistas semiestruturadas com atores reais do ecossistema de inovação de Campina Grande: empreendedores, gestores de incubadoras, professores universitários, representantes governamentais, empresários, startupeiros, entre outros. Não foi um estudo feito sobre dados secundários ou em contextos genéricos. Foi feito aqui, com quem vive e constrói inovação nesta cidade.

O modelo que emergiu das nossa contribuição

Ancorado no modelo de cultura organizacional do teórico Edgar Schein, o framework construído pela pesquisa organiza a cultura digital em três camadas que todo gestor de ecossistema reconhecerá:

Na superfície, os artefatos visíveis: práticas ágeis, flexibilidade, colaboração e conectividade digital. São os elementos mais fáceis de observar e, por isso, os mais frequentemente confundidos com "ter cultura digital".

Mais fundo, os valores declarados: orientação a dados, aprendizado contínuo, inovação como mentalidade, foco no cliente e tolerância ao risco. São os princípios que guiam decisões e que, quando ausentes, fazem com que as ferramentas mais modernas não produzam resultados.

Na camada mais profunda, os pressupostos subjacentes: a abertura genuína à mudança, a confiança que permite comunicação transparente e a crença coletiva de que tecnologias emergentes criam vantagem competitiva. Esses são os elementos que não se instalam por decreto se constroem ao longo do tempo, em comunidade.

O estudo também identificou algo que os profissionais de ecossistemas intuitivamente já sabem: a cultura digital floresce com liderança servidora, inclusividade e colaboração. Não se trata de ter os melhores softwares. É sobre o tipo de relações que uma organização ou um ecossistema inteiro é capaz de construir.

Um dos elementos mais ricos do artigo é o uso do modelo Triple Hélice a interação entre universidade, indústria e governo, como lente para compreender como diferentes atores institucionais percebem e praticam a cultura digital.

A conclusão é instigante, cada esfera opera sob uma lógica própria de risco, ritmo, abertura e responsabilização. Isso cria tensões reais dentro dos ecossistemas. E são essas tensões, quando bem geridas, que produzem inovação genuína.

Para um ecossistema como o E.InovCG, que reúne mais de 150 atores entre startups, empresas, universidades, institutos de pesquisa e órgãos públicos, essa leitura não é abstrata, significa ter o mapa e um guia do território que habitamos.

Por que a parceria com o E.InovCG 

Há uma diferença fundamental entre ser mencionado em uma pesquisa e ser o locus empírico central dela. O E.InovCG está na segunda categoria: foi dentro do ecossistema que a teoria foi testada, que as vozes foram ouvidas e que o framework foi construído.

Isso tem três consequências práticas imediatas.

A primeira é de legitimidade científica global. Campina Grande agora integra a literatura internacional indexada sobre ecossistemas de inovação e transformação digital. Gestores de inovação na Europa, na Ásia ou na América do Norte que pesquisarem sobre cultura digital e ecossistemas encontrarão referências ao que é feito aqui.

A segunda é de autonomia epistêmica regional. Por décadas, o Brasil e especialmente o Nordeste, importou modelos de inovação construídos com base em realidades de países desenvolvidos. Este estudo inverte a lógica: constrói teoria a partir da nossa realidade, com os nossos atores, sobre os nossos desafios. É conhecimento que nasce do território.

A terceira é de subsídio para políticas públicas locais. Os formuladores de políticas em Campina Grande e no estado da Paraíba agora têm evidências científicas robustas, publicadas em veículo de altíssimo impacto, sobre o que funciona e o que precisa ser desenvolvido em termos de cultura e transformação digital. Isso reduz achismos e fortalece a capacidade de argumentação em decisões de investimento, regulação e fomento.

O que isso convoca em nós

Publicações científicas internacionais sobre ecossistemas do interior do Brasil não são triviais. Elas são, ao mesmo tempo, uma validação do percurso feito e uma convocação para o que ainda está por construir.

O E.InovCG demonstrou, com evidências, que é um ambiente fértil para pesquisa de ponta sobre inovação. Isso obriga, no melhor sentido da palavra, a elevar a régua: na governança, na produção de dados, na abertura para parcerias acadêmicas, na qualificação das lideranças e na capacidade de transformar ciência em política e prática.

Campina Grande não está apenas no mapa da inovação brasileira. Está, cada vez mais, no mapa da inovação mundial. E o que essa pesquisa mostra é que o caminho passa, inevitavelmente, pela cultura, essa capacidade invisível que, quando presente, faz tudo funcionar melhor.

Artigo de referência: Farivar, F., Campos, L., Chong, A. e Thompson, N. (2026). "Reconceptualizing digital culture as a higher-order capability for digital transformation: insights from innovation ecosystem actors". Industrial Management & Data Systems. Emerald Publishing. DOI: 10.1108/IMDS-09-2025-1250.

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 Carlos Alejandro Rueda Angarita 

Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, na Carlos Rueda Consultoria, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora,  Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande e recentemente Membro Delegado da ALAS – Latin American Startup Alliance | Cohort 2026.

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