Campina Grande, 13 de abril de 2026
Há momentos em que uma política pública ultrapassa a dimensão burocrática e se converte em um marco histórico para um território. O Edital nº 0001/2026 da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba (SECTIES/PB), referente a chamada para seleção de Âncoras de Intensidade Tecnológica e Social (AITS) do Parque Tecnológico Horizontes de Inovação (PTHI), tem tudo para ser um desses momentos. Não porque seja perfeito, mas porque é ousado o suficiente para tentar algo que poucos estados brasileiros conseguiram fazer: transformar um centro histórico tombado em laboratório vivo de inovação, ao mesmo tempo em que constrói as bases de um ecossistema tecnológico com vocação territorial genuína.
Esta coluna traz reflexões sobre uma leitura aprofundada desse edital, principalmente, sobre as oportunidades que ele abre para organizações dispostas a ser protagonistas de uma das iniciativas de desenvolvimento regional mais ambiciosas do nosso estado.
O que está em jogo
O Programa Parque Tecnológico Horizontes de Inovação, localizado no Centro Histórico de João Pessoa, é a aposta do governo paraibano na construção de um ecossistema de inovação com identidade própria. A chamada AITS é o mecanismo pelo qual esse ecossistema ganhará densidade: são as âncoras, organizações com capacidade científica, tecnológica e institucional robusta, que darão o peso gravitacional necessário para atrair cada vez mais talentos, startups, pesquisadores e investimentos.
O conceito de âncora em ecossistemas de inovação não é novo. O Porto Digital, em Recife, é o exemplo mais bem-sucedido do Brasil: lançado em 2000 no bairro histórico do Recife Antigo, atraiu empresas âncoras de tecnologia que transformaram uma área degradada em polo de referência latino-americana, hoje com mais de 350 empresas e 12 mil empregos diretos. O 22@ em Barcelona na Espanha, fez algo semelhante com o bairro industrial de Poblenou, atraindo mais de 9.000 empresas e 95.000 postos de trabalho através de um marco regulatório que permitia usos mistos e diversidade institucional. O PTHI olha para esses modelos e propõe sua própria versão paraibana, com as especificidades, os desafios e as oportunidades únicas que esse território oferece.
A arquitetura do edital: Três modalidades, uma visão
O edital organiza as possibilidades de atuação das âncoras em três tipologias complementares, visando obter uma arquitetura que revele a sinergia e potencial do ecossistema estadual.
Os Living Labs Permanentes (LLP) são ambientes de experimentação contínua voltados a testes, validação, prototipagem e demonstração de tecnologias, operando em regime 24/7 ou horário estendido, empregando metodologias de inovação aberta, incentivando a participação cidadã e funcionando como espaços vivos de co-criação entre academia, setor produtivo, governo e sociedade.
Os Laboratórios de Produção Avançada e Microfábricas (LPAM) são espaços dedicados à produção de pequena escala, prototipagem rápida e manufatura avançada, capazes de demonstrar potencial de transferência tecnológica, escalabilidade, impacto econômico e fortalecimento de cadeias produtivas emergentes.
Os Hubs Estratégicos (HE) são ambientes institucionais de alta relevância para o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação, que contribuem para melhoram a capacidade do ecossistema, como a organização do diálogo entre setores, a atração de investimentos, internacionalização, formação de redes globais e consolidação de cadeias tecnológicas estratégicas para o Estado da Paraíba.
Esses ambientes não precisam estar fisicamente confinados ao parque. Eles podem se espalhar por qualquer localidade do estado, funcionando como pontos estratégicos que amplificam a presença, alcance, cobertura e a capilaridade das iniciativas do PTHI. Essa flexibilidade garante que as três modalidades, em conjunto, abranjam toda a cadeia de valor da inovação, desde a pesquisa aplicada até a inserção de mercado, da experimentação à produção, e da articulação local à conexão global.
Alguns pontos relevantes do texto
Quem lê o edital com atenção analítica encontra algumas decisões institucionais que merecem destaque especial.
A primeira é a proteção explícita à propriedade intelectual. No edital se afirma que a FPTHI não reivindicará propriedade sobre tecnologias, metodologias, processos, equipamentos ou quaisquer ativos intelectuais desenvolvidos pelas instituições selecionadas como AITS. Em um ambiente onde empresas privadas e instituições internacionais frequentemente hesitam em participar de iniciativas públicas por receio de perder direitos sobre suas inovações, essa cláusula é um sinal de maturidade conceitual e um diferencial competitivo real do edital.
A segunda é o fluxo contínuo de inscrições, sem número fixo de vagas. Essa escolha, aparentemente operacional, tem implicações estratégicas profundas. Permite que o ecossistema vá incorporando atores à medida que a infraestrutura e a governança amadurecem, evitando o risco de selecionar um conjunto de instituições que não dialoguem bem entre si. Mas também cria uma hierarquia temporal que poucos percebem: as primeiras âncoras selecionadas chegam quando o ecossistema ainda é plástico, quando as normas internas ainda estão sendo escritas, quando há mais espaço para influenciar a cultura e a governança do parque. Entrar cedo, portanto, não é apenas uma questão de agilidade mas uma decisão estratégica.
A terceira decisão relevante é a abertura da cláusula que permite a inscrição de propostas com "caráter inovador ou relevância estratégica" mesmo que não se enquadrem integralmente nas três modalidades previstas (LLP, LPAM e HE). Isso é uma abertura intencional para atores inesperados, coletivos culturais com viés tecnológico, organizações de saúde digital, institutos de pesquisa em bioeconomia, grupos de inovação social entre uma ampla variedade de opções. Quem souber usar esse argumento com inteligência na proposta tem um diferencial real sobre candidatos mais convencionais.
Os requisitos
Para se inscrever, as organizações precisam se caracterizar como Ambientes de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade, desenvolvendo atividades contínuas de pesquisa, desenvolvimento, validação e demonstração tecnológica, mantendo capacidade técnico-científica instalada. Devem possuir aptidão para atrair novos atores, investimentos, projetos e parcerias, gerar impacto territorial, contribuir para a formação de talentos e o dinamismo econômico, social e cultural do território, apresentar relevância regional, nacional ou internacional e articular transversalmente ciência, tecnologia, cultura, economia e desenvolvimento sustentável. Instituições com sede fora da Paraíba podem participar, desde que assumam o compromisso de instalar uma unidade, filial, laboratório, escritório avançado ou estrutura equivalente no Estado da Paraíba até o início do período de implantação das atividades.
A avaliação técnica distribui 100 pontos em sete critérios, que revelam o equilíbrio que o edital busca: excelência técnica sem perder o compromisso com o território e a sociedade. Essa dupla exigência afasta tanto organizações puramente acadêmicas sem capacidade de transferência tecnológica, quanto empresas puramente comerciais sem sensibilidade para o contexto urbano e comunitário em que o PTHI está inserido.
A nota mínima de 60 pontos para avançar às etapas seguintes e a desclassificação automática de qualquer proposta que zere em algum critério indicam que o Comitê de Avaliação buscará propostas equilibradas, sem pontos cegos em nenhuma dimensão.
As contrapartidas
O item 12 do edital estabelece um conjunto abrangente de contrapartidas obrigatórias que vão muito além da simples ocupação de um espaço ou formalização da parceria. As Âncoras de Intensidade Tecnológica e Social (AITS) deverão atuar ativamente na transferência de conhecimento, oferecendo desde workshops e mentorias até demonstrações tecnológicas. Além disso, espera-se que apoiem o ecossistema empreendedor da FPTHI, fornecendo suporte a startups e coletivos, e que promovam uma forte integração com Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs) por meio de projetos de P&D e compartilhamento de infraestrutura. O edital também exige um compromisso com a formação e inserção de jovens e mulheres, a realização de contribuições territoriais diretas para o Centro Histórico de João Pessoa, e o apoio a políticas de dados abertos e experimentação urbana ética.
No edital de âncoras não há aporte financeiro direto. O objetivo é qualificar parcerias e ampliar a capacidade de gerar impacto real. A contrapartida do Parque é em infraestrutura, espaços, conexão com ICTs, governo e mercado, além de apoio à inovação e internacionalização.
Oportunidades estratégicas
Além do que o edital estabelece explicitamente, há oportunidades estratégicas significativas que emergem da leitura entre linhas e que podem ser capitalizadas por organizações atentas. A localização do PTHI no Centro Histórico de João Pessoa, por exemplo, transcende a estética, posicionando-o como um polo de inovação urbana capaz de atrair financiamento internacional de organismos como BID Lab, PNUD e programas europeus de cidades sustentáveis, interessados na requalificação de territórios históricos. Uma âncora bem posicionada pode alavancar sua participação no PTHI para submeter propostas a esse tipo de financiadores. Adicionalmente, a presença no parque oferece um vetor de extensão digital para o interior do estado; uma âncora pode se tornar um ponto de acesso ao ecossistema de inovação para empreendedores de todas as cidades do estado. Soma-se a isso o "first mover advantage", oferecendo um cenário onde o custo de entrada é menor e o potencial de influenciar a cultura do ecossistema é maior, permitindo que as primeiras âncoras se tornem referências regionais. Para capitalizar essas oportunidades, é crucial que a proposta seja construída em torno de uma especialidade temática clara e diferenciada, evitando a dispersão em múltiplas modalidades. Mapear e articular parcerias com ICTs explícitas do PTHI, como UFPB, UFCG, IFPB e EMEPA, trará uma vantagem real na avaliação. É igualmente fundamental incluir uma estratégia de sustentabilidade financeira que demonstre a viabilidade da iniciativa para além dos 18 meses obrigatórios.
As inscrições estão abertas em fluxo contínuo pelo formulário disponível em https://forms.gle/bVo4y5h39hqZQChL7.
Um chamado à ação
O Edital AITS é um convite. Um convite para que organizações com capacidade real de gerar impacto científico, tecnológico e social saiam do conforto de suas operações habituais e apostem em algo maior: a construção de um ecossistema de inovação com identidade territorial genuína, no coração histórico de João Pessoa, com projeção para toda a Paraíba e para o Nordeste.
Ecossistemas de inovação bem-sucedidos não nascem de editais, nascem das organizações que decidem que vale a pena colaborar e criar sinergias. O Porto Digital não teria se tornado o que é sem as empresas que acreditaram no potencial do Recife Antigo quando ele ainda era apenas uma promessa. O 22@ não existiria sem os pioneiros que chegaram ao Poblenou quando o bairro ainda cheirava a fábrica abandonada.
O PTHI está nesse momento agora. O Centro Histórico de João Pessoa está nesse momento. As inscrições são gratuitas, o fluxo é contínuo, e o formulário está disponível. O futuro do ecossistema de inovação paraibano está sendo construído agora e tem espaço para quem queira fazer parte.
Para dúvidas e mais informações, o canal oficial é contato@horizontesdeinovacao.pb.gov.br, com o assunto “Dúvida: Edital AITS – PTHI”. Os sites da SECTIES e do PTHI são as fontes oficiais das atualizações.
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Carlos Alejandro Rueda Angarita
Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, na Carlos Rueda Consultoria, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora, Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande e recentemente Membro Delegado da ALAS – Latin American Startup Alliance | Cohort 2026.
