Carlos Rueda
Campina Grande, 06 de julho de 2026
Pela primeira vez, o país reuniu, em um mesmo processo, milhares de vozes de todos os cantos do território nacional para transformar a Agenda 2030 em diretrizes concretas de política pública. Na semana passada participei da 1ª Conferência Nacional dos ODS como delegado, representando os Ecossistemas de Inovação Farol Digital e E.InovCG, e saí com uma certeza e uma inquietação. A certeza: o Brasil acaba de fazer algo que nenhum país fez antes. A inquietação: momentos históricos viram pó se não forem seguidos de ação concreta.
Um marco que o mundo ainda não viu
Esta não foi mais uma conferência de três dias em Brasília. Foi o auge de um processo que percorreu o Brasil inteiro, conferências municipais, estaduais, livres e uma etapa digital, até chegar à plenária nacional com delegados eleitos de todos os estados. Foram mais de 31 mil participantes nas etapas preparatórias, 720 delegados na etapa nacional e 75 propostas aprovadas como diretrizes para a implementação da Agenda 2030 no país.
Foi a primeira conferência nacional dos ODS realizada no mundo. Em 2026, quando democracias retrocedem em vários países, o Brasil organizou um processo deliberativo sobre desenvolvimento sustentável com esse nível de abertura e alcance territorial. Isso, por si só, é uma afirmação política. Não há desenvolvimento sustentável sem democracia viva.
Do texto da ONU à vida real
A Agenda 2030 nasceu em 2015 como um compromisso entre governos na ONU. O que a conferência brasileira fez foi outra coisa: deslocar esse compromisso do plano diplomático para o plano das diretrizes nacionais, com propostas que vieram de cidades grandes, médias, pequenas, do semiárido, de periferias, de comunidades tradicionais e de territórios rurais.
Isso é muito relevante porque dá ao documento final uma densidade territorial que raramente aparece em políticas públicas. As propostas falam de mobilidade urbana acessível, agroecologia, sociobiodiversidade, inovação social em periferias, redes de governança local e uso de Núcleos de Inovação Tecnológica como sensores territoriais dos ODS. Não se trata de simples abstrações são formulações que nasceram de problemas reais, em lugares reais, por pessoas que vivem esses problemas.
Vale destacar ainda que o Brasil adotou voluntariamente um 18º ODS, a promoção da igualdade étnico-racial, como condição indispensável para o desenvolvimento sustentável e a efetivação dos direitos humanos, ampliando a agenda global com uma dimensão que reflete a história e as lutas do povo brasileiro.
O risco real: virar só documento
Como resultado, a conferência produziu um caderno robusto de diretrizes que será encaminhado ao Governo Federal com atuação transversal para todos seus ministérios, como referência para atualização de políticas, programas e mecanismos de financiamento. Mas entre uma diretriz aprovada em plenária e uma política pública que chega ao território existe um abismo, seria ingênuo não dizer isso diretamente, mas esse abismo para mim tem nome: e é a falta de atores que façam a tradução.
É aqui que entram os ecossistemas de inovação. Não como coadjuvantes, mas como infraestrutura estratégica de implementação. Ecossistemas como o Farol Digital ou o Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.InovCG), e dezenas de arranjos semelhantes espalhados pelo Brasil, constituem interfaces entre o que foi deliberado em Brasília e o que pode de fato acontecer em nas nossas cidades, no semiárido, nas periferias, nos territórios rurais. Articular universidades, governos, empresas, organizações da sociedade civil e empreendedores em torno de problemas concretos é exatamente o que a Agenda 2030 precisa para sair do papel.
O que o E.InovCG pode e deve fazer agora
A conferência terminou em Brasília mas, o desdobramento dos trabalhos começa agora, nos territórios. E o E.InovCG tem posição, relações e capacidade técnica para liderar essa transição do momento histórico à rotina de implementação. Gostaria de me valer deste espaço para propor uma agenda concreta em três movimentos:
O primeiro movimento é a leitura territorial das 75 diretrizes aprovadas. Nos próximos 60 dias, o E.InovCG pode organizar uma oficina de análise das propostas aprovadas com foco na Paraíba e Campina Grande, identificando quais diretrizes têm aderência direta com projetos, programas e iniciativas já em curso no ecossistema local. Essa leitura produz um entendimento real e deve entregar um mapa de oportunidades, onde já há energia e onde há lacunas que o ecossistema pode preencher, promovendo a sinergia que buscamos sempre entre nossos atores.
O segundo movimento é a criação de um Observatório ODS do ecossistema. Liderado por um dos nossos atores da vertical sustentabilidade, e com apoio de universidades parceiras, como a UFCG, a UEPB, ou UNIFACISA, e da rede de NITs da região, o E.InovCG pode estruturar um espaço de monitoramento dos indicadores ODS em nível local, cruzando dados públicos com as iniciativas do ecossistema. Esse observatório cumpre papéis de evidenciar o impacto das iniciativas existentes e produzir pressão legítima por orçamento e políticas nos governos municipal e estadual.
O terceiro movimento é montar uma carteira de projetos aderentes às diretrizes. A conferência criou uma base política para financiamento de inovação alinhada à Agenda 2030, via instrumentos federais, fundos de impacto, cooperação internacional e editais de fomento. O E.InovCG pode organizar, com startups, cooperativas, coletivos e organizações comunitárias da sua rede, uma carteira qualificada de projetos que conecte as diretrizes aprovadas a oportunidades concretas de financiamento. Não esperar o edital abrir para correr mas estar com a carteira pronta e totalmente preparados quando ele abrir.
Esses três movimentos não exigem grandes recursos para começar. Exigem intenção, articulação e consistência, que é exatamente o que ecossistemas maduros fazem melhor.
A história continua sendo escrita nos territórios
Para quem esteve em Brasília, a sensação de ter feito algo inédito é muito verdadeira. Mas o legado da conferência não será medido pelo número de delegados ou pela qualidade do caderno de propostas. Será medido pela nossa capacidade de fazer a ponte entre a palavra e a prática, entre a diretriz e a política pública, entre o texto e o impacto positivos na vida real das pessoas.
O E.InovCG tem a chance de ser um dos fios condutores dessa história em Campina Grande, na Paraíba, e como referência para outros ecossistemas que olham para o que está sendo construído aqui. Precisamos aproveitar está chance.
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Carlos Alejandro Rueda Angarita
Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, na Carlos Rueda Consultoria, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora, Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande e recentemente Membro Delegado da ALAS – Latin American Startup Alliance | Cohort 2026.
