CIÊNCIA NA SEGURANÇA | 20 perguntas a serem feitas em um contexto de feminicídio - Saulo Nunes


Entre 2017 e 2020, eu trabalhei na delegacia que abrange a área das Malvinas e mais cinco bairros em Campina Grande, o que abraça uma população de aproximadamente 80 mil pessoas. Assim, crimes como roubos, furtos, tráfico de drogas, tentativas de homicídio (que à época ficavam a cargo das delegacias distritais), ameaça, briga de vizinho e tudo o que se possa imaginar de desacordos comerciais desembocavam na nossa mesa. 

Diante de tamanho volume de informações, eu iniciei um levantamento para conhecer melhor minha área de atuação. O número de crimes registrados; o perfil das pessoas envolvidas (idade, escolaridade, sexo, etc.); se houve armas apreendidas; se foi ação da Polícia Civil ou Militar (ou outra); se a pessoa detida teve acompanhamento de advogado; enfim. 

A ideia era fazer um ‘raio x’ o mais fiel possível. E se as sete áreas abrangidas pelas sete delegacias distritais da cidade fizessem o mesmo, poderíamos nos perguntar, por exemplo, “Por que a área da delegacia ‘X’ tem tantas armas apreendidas, ao passo em que o setor da delegacia ‘Y’ quase não registra esse tipo de problema?”

É claro que as delegacias fazem suas estatísticas. Os dados que eu estava anotando eram para um estudo pessoal e específico. Saí da delegacia em 2020 e acabei não concluindo o trabalho. 

FEMINICÍDIO

Esses dias, aquela ‘fome’ pelos números bateu-me à porta. No dia 10 deste mês, o sujeito de nome Carlos Eduardo, 25 anos, matou sua ex-namorada, Lívia Berthoud, 23 anos, na cidade de Pindamonhangaba (SP). Eles namoraram durante quatro anos e, segundo a irmã de Lívia, Laura Berthoud, o rapaz nunca havia agredido a moça fisicamente. A única violência física cometida contra Lívia foi justamente tirar a vida dela com disparos de arma de fogo. O motivo é velho e conhecido: ele não aceitou o fim do namoro. 

Ainda de acordo com Laura, Eduardo perdeu o pai muito cedo (acidente automobilístico); perdeu a mãe aos 15 anos (acometida por um câncer); passou a viver sob os cuidados da avó; começou a usar drogas e integrar torcidas organizadas de São Paulo. 

Eu tenho dito (mera opinião) em momentos e ambientes oportunos que, em regra, o homem não mata uma mulher “pelo fato de ela ser mulher”. A meu ver, isso é frase de efeito para vender produto/serviço. Todo crime tem sua motivação – que, obviamente, não se confunde com justificativa – e “ser mulher” passa longe da razão motivacional do delito.

NÃO JUSTIFICA 

Passo a palavra aos profissionais da saúde mental agora: as mortes dos pais de Carlos Eduardo, aliadas ao uso de drogas na adolescência, têm peso no enredo desse crime? Sim ou não? Eu sei, não justifica. Estamos buscando as causas, e não um perdão judicial.

NÃO SE ANALISA?

Em 2025, o Brasil registrou 1.571 casos de feminicídio. Agora senta, que bateu meu espírito curioso:

1. Desse total, em quantos casos o assassino fez/faz uso de álcool ou outras drogas? 

2. Em quantos episódios o autor do crime se matou após cometer o feminicídio?

3. Quantos tentaram se matar?

4. Quantos fugiram?

5. Quantos se entregaram à polícia?

6. Qual o meio mais utilizado para cometer o crime?

7. Quantos foram cometidos dentro de casa?

8. Quantos foram em um lugar para onde a vítima foi atraída?

9. Quantos foram “de emboscada” (como no caso de Lívia Berthoud)?

10. Existem dias e horários preponderantes ou os 1.571 registros são bem dispersos nesse quesito?

11. Quantos foram por ciúmes?

12. Quantos foram por motivos financeiros?

13. Quantos foram “do nada” (surto, por exemplo)?

14. Em quantos casos havia medida protetiva expedida (como no caso de Lívia)?

15. Em quantos casos a família já sabia dos problemas no casal?

16. O casal chegou a se separar e reatar o relacionamento alguma vez?

17. Quais os níveis financeiro e de escolaridade de quem matou e de quem morreu?

18. O assassino tinha conhecimento da pena imposta a quem comete feminicídio?

19. O assassino dá sinais claros de arrependimento?

20. E se uma força-tarefa formada por polícia, justiça, assistência social e saúde mental se debruçasse sobre “O que pensam os feminicidas após cumprirem cinco anos de prisão?”

O tipo de violência (feminicida ou não) verificada na área do bairro Alto Branco pode não ser o mesmo vivenciado no Mutirão, a 13 quilômetros de distância. E isso só se descobre anotando cada detalhe.  

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Saulo Nunes é jornalista, policial civil e escritor

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