O algodão que já nasce colorido e o futuro que Campina Grande precisa colher – Carlos Rueda


Campina Grande, 20 de outubro de 2026

Em Campina Grande existe uma fibra de algodão que já nasce colorida e dispensa parte do tingimento químico. Desenvolvida pela Embrapa Algodão, ela é ao mesmo tempo ciência de ponta, resposta aos desafios do semiárido e matéria-prima para a moda sustentável. Se há um símbolo do que a inovação pode ser por aqui, é esse.

Ontem, 19 de outubro, celebra-se o Dia Nacional da Inovação, data instituída pela Lei nº 12.193/2010 em referência ao voo de Santos Dumont ao redor da Torre Eiffel, em 1901. Mais do que homenagem ao passado, a data é um convite a perguntar o que estamos fazendo para transformar ideias em futuro. Inovar não é só criar aplicativos ou falar de inteligência artificial. É resolver problemas reais: produzir com menos desperdício, cuidar melhor da saúde, usar a água com inteligência e gerar renda a partir da identidade cultural.

Do algodão ao software

Campina Grande nasceu como entreposto comercial e se consolidou com o algodão, o "ouro branco". Décadas depois, reinventou a economia e passou a ser chamada de "Vale do Silício Nordestino". Isso não aconteceu por acaso. Foi resultado da combinação entre universidades como a UFCG e a UEPB, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e uma comunidade empreendedora persistente. Em 2014, segundo a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTc-PB), a cidade já contava com mais de 100 empresas do setor de tecnologia instaladas, muitas delas em desenvolvimento de software.

A força local, porém, está na diversidade. Na saúde, o Nutes, núcleo de tecnologias estratégicas da UEPB, trabalha com diagnóstico, saneamento e gestão em saúde. No campo, a Embrapa une pesquisa e moda. No semiárido, a escassez de água e os resíduos viram oportunidade de biogás, biofertilizantes e reúso hídrico. E a economia criativa, com as artes midiáticas, música, design e gastronomia, é território fértil para novos negócios e turismo, como mostra a rota "Caminhos da Inovação" do Ecossistema de inovação de Campina Grande (E.InovCG).

Uma economia menor do que a sua capacidade

O E.InovCG reúne empresas, universidades, startups, poder público e sociedade civil em torno de uma agenda comum. Mas há um desafio de escala.

Campina Grande é a segunda maior economia da Paraíba, respondendo por 13,4% do PIB estadual em 2021, segundo dados do IBGE e da SEPLAG-PB. Em 2023, seu PIB alcançou R$ 12,9 bilhões, o que mantém a cidade em torno de 13% da economia paraibana. Essa participação econômica, porém, ainda é menor do que a capacidade que a cidade concentra em pesquisa, tecnologia e empreendedorismo: Campina Grande reúne uma parcela expressiva dos grupos de pesquisa, laboratórios e empresas de base tecnológica do estado. Essa diferença entre o que a cidade produz e o que ela sabe fazer é sua grande oportunidade, desde que o conhecimento vire produto, empresa e emprego.

Incentivos que precisam virar resultado

Aqui está o ponto central. Campina Grande tem um instrumento raro entre os municípios brasileiros: o PICTI, Programa de Incentivo à Ciência, Tecnologia e Inovação, criado pela Lei Municipal nº 7.193/2019, onde projetos aprovados podem captar recursos de contribuintes que destinam até 20% do ISS devido ou até 20% do IPTU do imóvel-sede na cidade.

Desde sua criação, o PICTI prevê mecanismos para financiar projetos aprovados de ciência, tecnologia e inovação. Ainda assim, faltam dados públicos consolidados sobre o número de projetos apoiados e os recursos efetivamente captados. Essa transparência é essencial para transformar o programa em política de estado, e não apenas em dispositivo legal.

No plano federal, a Lei do Bem permite às empresas excluir da base de cálculo do IRPJ e da CSLL 60% dos gastos elegíveis com pesquisa e desenvolvimento, percentual que pode chegar a 80% quando há aumento no número de pesquisadores contratados. Há uma limitação importante: só vale para empresas no regime de lucro real, o que deixa de fora a maior parte das startups.

Ou seja, ter lei não basta. Startups, laboratórios e empresas precisam saber que os incentivos existem, entender como acessá-los e encontrar um processo de aprovação ágil, transparente e orientado a resultados. Esse é o gargalo que separa a boa intenção do impacto.

Uma Paraíba do litoral ao sertão

A inovação paraibana também não se resume a Campina Grande. A Rota da Inovação Paraibana conecta ecossistemas como o Farol Digital, em João Pessoa, o Brejo Tech, em Guarabira, e o Dino Valley, em Sousa, entre outros espalhados pelo estado. É uma capilaridade estratégica, porque talentos e problemas existem em todo o território. A Paraíba aparece entre os cinco estados que mais investem proporcionalmente em P&D público, com 0,17% do PIB, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados 2026, do Centro de Liderança Pública (CLP), o que a coloca na 5ª posição nacional e na 3ª no Nordeste.

O que cobrar da próxima década

Santos Dumont provou que o Brasil sabe sonhar alto. Campina Grande mostra que sabe transformar sonhos em ecossistema. Mas o próximo ciclo exige mais do que celebração: exige transformar a política pública de inovação em uma agenda viva, com governança clara, dados públicos e processos previsíveis.

Isso significa atrair capital paciente para financiar empresas em crescimento, mobilizar empresas âncora capazes de puxar cadeias produtivas, reter talentos e criar condições para que quem se forma aqui encontre aqui oportunidades para construir o futuro.

O desafio não é inventar inovação: é dar escala à inovação que já existe. Campina Grande já provou que sabe reinventar sua economia. Agora, precisa transformar capacidade científica em produto, empresa, emprego e impacto. A pergunta não é se a cidade pode inovar. É se vamos ter a coragem de colocar essa capacidade a serviço de um projeto coletivo de desenvolvimento.

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Carlos Alejandro Rueda Angarita - Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, na Carlos Rueda Consultoria, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Especialista em Empreendedorismo no Parque Tecnológico Horizontes da Inovação (PTHI), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora,  Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande e recentemente Membro Delegado da ALAS – Latin American Startup Alliance | Cohort 2026.

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