Internacionalização: A Próxima Fronteira da Inovação Paraibana - Por Carlos Rueda

Campina Grande, 14 de novembro de 2024

A Paraíba acaba de dar um passo estratégico que pode redefinir o futuro do seu ecossistema de ciência, tecnologia e inovação. A parceria entre a Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties), Fapesq e o Movimento pela Utilização Digital Ativa (MUDA) não é apenas mais um acordo de cooperação internacional, se trata da materialização de uma visão que compreende a internacionalização como ferramenta essencial de competitividade e desenvolvimento.

Com sede no Hub Digital de Portugal, em Lisboa, pelos próximos três anos, a Paraíba passa a integrar um dos principais polos de inovação tecnológica da Europa. Mas o que isso significa, na prática, para startups, empresas tradicionais e pesquisadores paraibanos?

Quando local encontra global

A internacionalização de negócios deixou de ser privilégio de grandes corporações há muito tempo. No contexto atual, startups em estágio inicial, empresas familiares com produtos diferenciados e pesquisadores com soluções inovadoras podem e devem pensar globalmente desde a concepção dos seus projetos.

O acordo com o MUDA representa exatamente essa democratização do acesso internacional. Ao garantir espaço físico permanente em Lisboa e participação de 23 startups paraibanas no Web Summit 2025, o estado cria uma infraestrutura de soft landing que antes era de difícil acesso para a maioria dos empreendedores locais.

As startups selecionadas, que vão desde soluções em saúde digital e sustentabilidade até economia criativa e agrotech, ilustram a diversidade e potencial do ecossistema paraibano. Empresas como 3D Eco House, Alcalitech, Inpyro Tecnologia, Sede de Design e Arandu Lab não estão apenas mostrando produtos: estão validando modelos de negócio em um mercado exigente e conectado, acelerando seu amadurecimento organizacional e atraindo olhares de investidores internacionais.

Além do glamour dos eventos: preparação é tudo

Participar de um Web Summit ou ter espaço em um hub europeu é extraordinário, mas não é garantia de sucesso. A internacionalização exige prontidão, e aqui mora um dos maiores desafios para empresas paraibanas, sejam elas startups nascentes ou negócios tradicionais com décadas de experiência.

Antes de embarcar para Lisboa ou qualquer outro mercado internacional, é fundamental avaliar criteriosamente: o produto está validado localmente? A operação está estruturada para escalar? Existe capital para sustentar a expansão sem comprometer o negócio nacional? O time compreende as particularidades culturais, regulatórias e comerciais do mercado-alvo?

Muitas empresas subestimam a complexidade operacional da internacionalização. Questões como proteção de propriedade intelectual, conformidade com regulações locais (como a GDPR na Europa), adaptação de produtos para diferentes contextos culturais e gestão de parcerias internacionais exigem planejamento detalhado e, muitas vezes, consultoria especializada.

É nesse ponto que o papel da Secties e do Sebrae se torna crucial. Os programas de fomento como Centelha, Tecnova, Capital Empreendedor e Conectando Startups não apenas financiam, também capacita, mentora e prepara estruturalmente os empreendedores para esse salto. A articulação institucional criada pela parceria com o MUDA funciona como ponte, reduzindo a curva de aprendizado e os riscos inerentes a qualquer expansão internacional.

Mercados estratégicos e oportunidades setoriais

A escolha de Portugal como porta de entrada para a Europa não é casual. Além da óbvia vantagem do idioma comum, o país funciona como hub de acesso ao mercado europeu e mantém laços históricos que facilitam negociações e parcerias. Para startups de tecnologia, especialmente nas áreas de edtech, fintech, healthtech e govtech, Lisboa se consolidou como ecossistema vibrante e receptivo.

Mas a estratégia de internacionalização paraibana não deve se limitar à Europa. Os dados mostram que Estados Unidos, Canadá, Espanha e Holanda já são mercados consolidados para produtos paraibanos, especialmente nas áreas de alimentos processados, bebidas, calçados e couro. Há oportunidades significativas também em mercados emergentes como Gana, Paraguai e países asiáticos para soluções em agrotech, bioeconomia e tecnologias adaptadas a realidades similares à brasileira.

O segredo está em identificar onde seus diferenciais competitivos fazem sentido. Uma startup de economia criativa pode ter mais sinergia com o ecossistema português. Uma empresa de soluções para agricultura sustentável pode encontrar oportunidades maiores no Canadá ou em países africanos. Uma healthtech pode mirar o mercado americano, onde a demanda é imensa, mas a competição também.

Empresas tradicionais: hora de inovar na internacionalização

Se as startups ganham destaque nessa discussão, as empresas tradicionais paraibanas não podem ficar de fora. O estado tem histórico sólido em exportação de produtos como calçados, têxteis, alimentos e bebidas. Porém, internacionalizar vai além de exportar commodities ou produtos acabados.

Empresas estabelecidas podem usar a transformação digital para reposicionar seus negócios globalmente. Uma indústria de calçados pode desenvolver uma plataforma de customização digital. Uma empresa de alimentos pode criar soluções de rastreabilidade blockchain que agreguem valor ao produto final. Uma confecção tradicional pode se conectar a marketplaces europeus de moda sustentável.

O Hub Digital em Lisboa pode servir como laboratório para essas empresas testarem novos modelos de negócio, conhecerem tendências de consumo europeu e estabelecerem parcerias estratégicas sem o custo proibitivo de uma operação internacional própria.

Sustentabilidade da estratégia: o que vem depois?

Três anos de presença garantida em Lisboa é um prazo significativo, mas o verdadeiro legado dessa parceria será medido pela capacidade de criar uma cultura de internacionalização no ecossistema paraibano. Isso significa formar gestores públicos preparados para políticas de comércio exterior, capacitar empreendedores em negociação internacional, desenvolver infraestrutura local que apoie empresas orientadas a exportação ou internacionalização e, fundamentalmente, conectar universidades, centros de pesquisa e empresas em projetos com potencial global desde a origem.

A inauguração oficial do espaço durante a Bolsa de Turismo de Lisboa, em fevereiro de 2026, deve ser vista não como ponto de chegada, mas como marco de uma jornada de longo prazo. O sucesso será medido não apenas pelo número de startups que conseguirem investimento ou fechar contratos internacionais, mas pela transformação na mentalidade empreendedora local, quando pensar globalmente se tornar natural desde a concepção de qualquer novo negócio.

O futuro está em movimento

A Paraíba tem ativos importantes: ecossistemas de inovação crescentes, instituições de ensino e pesquisa de qualidade, políticas públicas progressivamente mais alinhadas com as demandas da nova economia e, agora, uma ponte concreta com um dos principais polos tecnológicos europeus.

O desafio é transformar essa oportunidade em vantagem competitiva sustentável. Para isso, é fundamental que empresários e empreendedores vejam a internacionalização não como evento isolado, mas como estratégia contínua. É preciso investir em capacitação, buscar mentorias especializadas, participar de programas de aceleração e, principalmente, estar disposto a aprender e adaptar-se rapidamente.

A conexão com Lisboa é a porta que se abre. Atravessá-la com preparação, estratégia e visão de longo prazo fará toda a diferença entre uma participação protocolar em eventos internacionais e a construção de uma posição relevante no cenário global de inovação.

O movimento está feito. Agora, cabe ao ecossistema paraibano e a cada um dos seus atores, manter-se em movimento, digital e globalmente conectados.

A internacionalização não é sobre abandonar raízes locais, mas sobre criar pontes que ampliem horizontes e multipliquem possibilidades. A Paraíba está construindo essas pontes. O próximo passo é atravessá-las com confiança e competência.

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Carlos Alejandro Rueda Angarita - Consultor Empresarial, Mentor Internacional de Negócios Inovadores e de Impacto Social, Doutor, Cum Laude, em Economia da Empresa, Mestre em Desenvolvimento de Sistemas para o E-commerce, Mestre em Economia da Empresa pela Universidad de Salamanca (Espanha), Administrador de Instituições de Serviço pela Universidad de La Sabana (Colômbia), +10 anos de experiencia em cargos de liderança, CEO do Núcleo Gestor do Ecossistema de Inovação de Campina Grande (E.INOVCG), Embaixador da Economia Criativa da RBCC - Rede Brasileira de Cidades Criativas (UNESCO), Colunista do Portal Digital Hora Agora,  Co-líder do NASA Space Apps International Challenge e do Tech Brazil Advocates Campina Grande.

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