QUEM LEMBRA? | O dia em que protesto de policiais quase adiou o jogo Treze x São Paulo em Campina Grande

O ano era 2011. Eu era agente penitenciário e mantinha um blog – PARAÍBA EM QAP –, o primeiro do estado a tratar de assuntos exclusivamente policiais. A iniciativa pioneira de criar o site me gerou uma aproximação fraternal com vários policiais à época, e no dia 16 de fevereiro de 2011, eu estava na frente do 2º Batalhão de Polícia Militar, em Campina Grande, registrando um dos momentos mais raros que testemunhei até hoje.

Situando o leitor: policiais de todo o Brasil estavam embebecidos pela promessa de melhorias salariais travestida de “PEC 300”. Pela proposta, os agentes de segurança praticamente dobrariam seus salários, alcançando um patamar razoável de recompensa financeira por enfrentar o crime.

Como se não bastasse, criaram uma tal de “PEC 300 Paraíba”. A ideia soou como dose cavalar de metanol para quem já estava embriagado com a promessa nacional. O fato é que as duas mentiras – a brasileira e a paraibana – perderam seus prazos de validade, e pelo menos em Campina Grande os policiais militares não deixaram barato. 

OLHOS PARA ‘O AMIGÃO’

No dia 16 de fevereiro de 2011, o Treze de Campina Grande receberia o São Paulo no estádio O Amigão. E quem faz a segurança desses jogos? Os praças da Polícia Militar. Daí, alguém teve a ideia genial de – naquele contexto de promessas não cumpridas – fazer o governo do estado passar vergonha nacional. A meta, portanto, seria adiar o jogo por falta de policiamento.

Para isso, seria preciso evitar que as tropas policiais saíssem do 2º Batalhão. E agora, como fazê-lo? É simples: vamos levar nossas famílias (mães, pais, filhos, irmãos, etc.) e fechar a entrada do chamado Guardião da Borborema. “Se todo mundo pode protestar, nossos parentes também podem”. 

Assim foi feito. Estrategicamente pensado, os familiares dos policiais levaram mesas, cadeiras, colchões, brinquedos infantis e montaram um verdadeiro acampamento na entrada do batalhão. Ninguém entrava, ninguém saía. As viaturas que deveriam seguir para O Amigão ficaram ‘presas’ dentro do prédio militar.

Os comandantes da PM à época, claro, entraram em pânico. Não é toda década que a Paraíba sedia um jogo Treze x São Paulo. E quando surge a oportunidade, a partida ser cancelada por falta de policiamento seria uma desmoralização de tirar qualquer governador do sério.

OLHOS PARA JOÃO PESSOA

Lembro-me bem que eu estava ao lado de policiais ‘presos’ na área interna do batalhão, sem poderem sair, e iniciei o diálogo com um deles.

- E agora, Stive? 

- E agora é nada. Sem jogo n’O Amigão hoje! [risos]. Eu é que não vou atirar nem jogar gás de pimenta nos meus filhos e na minha esposa, para tirar eles dali. E quero mesmo ver quem será o doido que terá a coragem de fazer isso na minha frente.

Os minutos passavam; as tentativas de negociação com os familiares dos policiais eram em vão; o clima ficava cada vez mais tenso. O comando da Policia Militar precisava fazer alguma coisa. A saída foi enviar tropas de João Pessoa, às pressas, para Campina Grande, e ‘garantir’ enfim a segurança do jogo.

OLHOS PARA O BRASIL

Quando eu cito a palavra ‘garantir’ em aspas não é à toa. A Polícia Militar até que conseguiu chegar a tempo, com equipes improvisadas da capital, para convencer o árbitro da partida que estava tudo certo. Só que um episódio que aconteceu dentro d’O Amigão naquele dia foi mais impactante do que o acampamento de mulheres e crianças na porta do 2ª Batalhão.

Policiais civis que estavam no estádio tentaram prender um criminoso; houve reação; parte da torcida partiu para cima dos investigadores; e um dos policiais efetuou disparos para o alto. Tudo registrado pelas emissoras de TV na cobertura de um evento que não acontece toda década na Paraíba. Foi a cereja do bolo para quem queria fazer o governo do estado passar vexame em rede nacional.

Segundo se comenta nos bastidores, naquele dia o então governador à época, Ricardo Coutinho, teria ficado tão furioso que deu ordem (segundo versões) “para prender todo mundo”. Coutinho achava que os tiros do PC estavam em sintonia com a ideia sensacional dos PMs. Em verdade vos digo que, se fosse combinado, não teria dado tão certo assim.

OLHOS PARA HOJE

A Paraíba assiste, hoje, a uma grande insatisfação de policiais – agora de todas as forças de segurança – no que se refere ao que chamam de “o pior salário do Brasil”. Pelo menos na Polícia Civil, a Confederação Brasileira de Policiais Civis (Cobrapol) – entidade nacional – garante que a Paraíba paga, sim, a pior remuneração nacional. Sobre as demais instituições eu confesso que não tenho conhecimento.

O fato é que está quase todo mundo [aparentemente] indignado com o cenário posto. Protestos de rua já foram realizados e outros estão por vir, como forma de deixar essa insatisfação bem transparente. 

Mas permitam-me uma análise crítica. Sem querer estimular absolutamente nada, eu sinto que hoje faltam cérebros como os de 2011...

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Saulo Nunes é jornalista, policial civil e escritor

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